Vício em dinheiro e poder

março 4, 2019 9:30 am

 

Há vários motivos para entrar na política, ou na “vida pública”, como gostam de dizer – mas os piores deles são certamente dinheiro e poder. Não é por acaso que Sérgio Cabral, que continua preso, declarou, em depoimento à Justiça Federal, que o seu “apego a poder e dinheiro é um vício”.

A exemplo do ex-governador do Rio, os tais “viciados” são facilmente reconhecidos no ambiente público. Basta perceber que eles tomam posse já em campanha para a próxima eleição, sem nenhum compromisso de entrega à sociedade ou a quem os elegeu, senão um compromisso consigo mesmo: o de passar todo o mandato enriquecendo e fazendo campanha com dinheiro público para garantir os votos da próxima eleição.

Esses mercadores da política, que compram votos e vendem os seus mandatos para garantir que permanecerão por lá, precisam ser imediatamente identificados, perseguidos criminalmente e eliminados, pelo voto, do cenário eleitoral. Eles representam uma grave doença no processo democrático, que fica não apenas fragilizado, mas completamente deturpado a partir da visão míope de quem compra os serviços do político que deveria trabalhar para a sociedade e não por interesses menores ou particulares.

Como todo vício, com o tempo, ele coloca em risco o próprio agente. Mas antes disso, no caso dos políticos, ele destrói a vida de milhares de pessoas, que dependem desse sujeito para ter acesso a serviços públicos básicos de modo eficiente. E, diante da bandalheira, essas pessoas se veem constantemente obrigadas a mendigar algum favor daqueles políticos que lhe são mais próximos, para que consigam receber como esmola aquilo pelo que pagaram com os seus impostos: segurança, saúde, educação e infraestrutura.

Quando reafirmo o meu desgosto com os políticos profissionais, que resolveram fazer da política não uma missão, mas um meio de vida, gosto de lembrar que quem se prende a isso como um viciado será capaz dos maiores absurdos para garantir a sua recondução ao cargo. Não é coincidência que os maiores escândalos políticos derivem, quase sempre, da busca de reeleição de mandatários, que no desespero de manter os seus acessos ao dinheiro e ao poder, são capazes das maiores atrocidades.

Sei que o ambiente público é preenchido de interesses escusos, por parte de muitos que estão do lado de dentro – mas também de outros tantos que se colocam do lado de fora como clientes do sistema. E é por isso que eu, desde a posse, insisto em gravar e publicar na internet os vídeos (em 360º) das reuniões com quem me procura no gabinete. Pode parecer chato, mas é uma forma de, a um só tempo: garantir a transparência que eu prometi na campanha eleitoral; e promover um mecanismo de autoproteção. A depender do que o sujeito queira pedir em uma reunião, ao saber que ela é gravada e que será postada, logo desiste…

A mudança que precisamos está baseada em um modelo diferente. Está baseada na vinda para o ambiente político de pessoas que não dependem da reeleição para continuar a viver. Está baseada na percepção de que o interesse a ser perseguido na atividade política é unicamente o interesse público – sem privilégios, sem indicações, sem jeitinhos, sem recomendações.

Para isso, precisamos que os “viciados” em dinheiro e poder saiam. E há duas formas de isso acontecer: sendo responsabilizados e presos pela justiça ou perdendo eleições. Que a justiça cumpra o seu papel. Enquanto isso, vamos também cumprir o nosso.

 

Texto originalmente publicado no jornal O Tempo – 04/03/2019

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