Vaia quer dizer alguma coisa

agosto 27, 2018 3:30 pm

 

Tenho me abismado, cada vez com mais frequência, com o fato de os políticos e pseudo-autoridades se esconderem do público sempre que possível: seja fretando jatos para não usar aviões comerciais ou, mais discretamente, embarcando pela porta dos fundos do avião; seja evitando espaços abertos ou restaurantes; seja ainda providenciando salas especiais, passagens secretas ou elevadores reservados.

É o “Medo da Rua”…

Era essa a expressão utilizada para fazer referência ao pavor da nobreza francesa no pós-revolução, quando qualquer deslize passou a ser motivo de guilhotina. Com o olhar do distanciamento histórico, é fácil perceber a grande culpa dos “perseguidos” em meio a tudo aquilo, pois a manutenção de uma estrutura de privilégios inaceitáveis aos ocupantes do poder, acompanhada de uma tributação massacrante que comprometia a renda e a produção nacional, acabou por fazer com que o cidadão se levantasse contra os ocupantes do poder.

Por aqui, não há guilhotinas na rua, mas há vaias por toda parte – e elas significam alguma coisa, ainda que os vaiados não queiram perceber. Elas são a guilhotina moral.

Claro, pessoas públicas sempre serão objeto da observação geral e da crítica aberta. Faz parte do espaço democrático, mas essa “perseguição” a políticos com vaias e xingamentos deveria levar a um mínimo de autocrítica por parte da corte instalada no poder. Desde ministros do Supremo a vereadores, passando por todos os cargos da República, estão todos submetidos ao linchamento moral público e à “perseguição” das ruas…

E vai crescendo o Medo da Rua… É bom que cresça; é bom que gere reflexão, pois não há muro alto o suficiente nem vidro escuro que possam proteger a classe política de uma verdade definitiva: a população está cansada de custear privilégios.

Alguns dias atrás fui almoçar na Savassi e, enquanto aguardava um carro de aplicativo para me levar à Câmara, o sinal da Rua Pernambuco com Santa Rita Durão abriu e fechou por quatro vezes. Em cada uma delas um motorista ou motociclista me chamou pelo nome e fez um comentário sobre a minha atuação na Câmara, todos em tom de incentivo ou elogio. Ao meu lado estava um dos garçons do restaurante e falou, em um tom de quase surpresa: “achei que alguém iria acabar xingando o senhor…”

Até aqui não aconteceu, mas imagino que acabarei topando de frente, em algum momento, com alguém mais aborrecido com uma das minhas posturas. Se acontecer, vai me levar à reflexão, mas fico satisfeito por não ser parte dos que são vaiados por onde passam. Pena que os objetos de vaia aparentemente não tenham aprendido nada com isso, até agora.

 

Texto originalmente publicado no jornal Hoje em Dia – 27/08/2018

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