Uma pessoa ou mais um acidente na paisagem

setembro 24, 2013 9:00 am

Com o tempo fui também me acostumando com essas presenças invisíveis, os mendigos, os pedintes, essa massa de gente que passa por nós todos os dias e que tentamos evitar, de todas as formas possíveis. A verdade é que a maioria de nós passa por essas figuras sem perceber ali uma pessoa, senão um acidente na paisagem urbana.

Como eu me mudei ainda muito cedo para Araxá e depois para Uberaba, foi apenas na minha juventude que fui confrontado com a realidade da população de rua.

Para mim foi um choque inicial, mas percebi, rapidamente, que as pessoas ao meu redor não se incomodavam tanto com o fato, senão pelo receio de um assalto ou pelo incômodo do pedido de uma esmola.

Com o tempo (meu retorno à capital está para completar 20 anos) fui também me acostumando com essas presenças invisíveis, os mendigos, os pedintes, essa massa de gente que passa por nós todos os dias e que tentamos evitar, de todas as formas possíveis.

Minha pergunta é se isso constitui, efetivamente, um problema que mereça atenção das autoridades e regulação de alguma espécie, ou se estamos diante do inevitável.

Quando fui a primeira vez aos Estados Unidos fiquei muito impressionado com a quantidade de mendigos nas ruas, pois acreditava que isso não acontecesse em países ricos. Fiquei ainda mais surpreso quando uma amiga americana afirmou que estavam todos ali porque queriam, pois se persistissem poderiam ter encontrado trabalho.

Esse conceito, de mendigo por opção, nunca me convenceu.

Já concluí, há muito tempo, que as pessoas são levadas à rua pelos mais diferentes motivos, desde falta de dinheiro, violência doméstica, desemprego, decepções amorosas, doenças mentais e toda sorte de desventura que ronda a existência humana, mas a escolha por aquela vida continua me parecendo o cenário menos provável.

Também descobri, contudo, que resgatar essas pessoas, daquele tipo de existência, é um desafio maior do que imaginamos. É que não é simples reestruturar a “cadeia de valores” de quem ficou tanto tempo abandonado.

Trabalho, horário, higiene, são conceitos muito distantes da realidade das ruas.

Reinserir um morador de rua na vida convencional, portanto, não é tarefa fácil e, diante disso, fica a pergunta, como tratar desse problema? Institucionalizar essas pessoas, recolhendo-as e criando uma espécie de prisão perpétua contra quem não praticou crime algum? Oferecer uma ajuda contínua que jamais as resgatará daquela situação? Deixá-las abandonadas, como estão, para que o tempo não resolva o problema?

Essa última alternativa tem parecido a mais comum e conveniente, pois não visualizo nenhuma política pública efetiva de resgate da população de rua no Brasil.

A verdade é que a maioria de nós passa por essas figuras sem perceber ali uma pessoa, senão um acidente na paisagem urbana.

Certa vez conheci o síndico de um prédio que resolveu construir um grande jardim em frente ao edifício, para ocupar o espaço que dois mendigos vinham usando para dormir. Perguntei a ele: “Mas o senhor sabe que eles vão apenas sair daqui para ir dormir debaixo da marquise de outro prédio?” Ele respondeu solenemente: “Sei, mas esse é um problema do síndico daquele prédio.”

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