Tudo são ciclos

fevereiro 4, 2019 10:59 am


A vida é feita de ciclos pessoais e profissionais. É assim com qualquer pessoa, em qualquer tempo e em qualquer posição. Os desafios são postos, estruturamos nosso comportamento, buscamos nossos objetivos e, colhido o resultado, seguimos rumo a um novo ciclo.

Recentemente fui chamado para dar uma palestra sobre como transitar entre várias atividades, já que estudos mostram que as novas gerações terão de mudar de profissão mais de uma vez ao longo da vida. Diferente dos outros palestrantes, não migrei entre carreiras – vim acumulando atividades.

Naquele momento eu acumulava as funções de: professor de Direito na Faculdade Milton Campos, advogado em meu escritório, professor da Fundação Dom Cabral, procurador concursado da ALMG (ainda que licenciado sem remuneração), vereador eleito por Belo Horizonte e coordenador político da campanha do Governador Zema.

Sempre que me perguntavam como era possível eu respondia: organização e disposição.

Infelizmente, na última semana, fechando meu planejamento, conclui que nem toda a organização e disposição do mundo seria capaz de alongar o meu dia para além de 24h e, por isso, tive de abrir mão de uma das atividades. Logo a mais antiga e a que me dava mais prazer: professor da graduação em Direito da Faculdade Milton Campos. A decisão não foi fácil, mas o critério foi simples: fechei mais um ciclo.

Fui professor de graduação por 15 anos e vivi em sala de aula meus melhores momentos profissionais. Aliás, foi nessa posição que me habilitei de forma profunda à advocacia, que me preparei para ser aprovado em um concurso público, que me tornei conhecido para chegar à Fundação Dom Cabral e, de alguma forma, meus alunos são os grandes responsáveis pela minha eleição. Todos os meus trabalhos derivam dali.

Mas reconheço que todos os ciclos se fecham, ainda que não necessariamente de forma definitiva.

Pouca coisa me faz sorrir tão rápido quanto ouvir um inesperado “Professor!” no meio do shopping ou na fila do restaurante. A possibilidade de participar do maravilhoso e surpreendente processo de afloramento do conhecimento nos estudantes é um momento quase mágico. Considero inclusive que me ajudou e me ajuda muito na minha atividade política – não pela ideia de que tenho muito a ensinar a alguém, mas por ver de perto, todos os dias, como a educação é transformadora.

Tenho um amigo que não gosta da expressão “aluno” que, literalmente significaria, na origem, “aquele que não tem luz”. Ele tem razão, pois eles têm luz, suficiente para iluminar o próprio caminho e, até aqui, o meu.

Meus alunos nunca precisaram verdadeiramente de mim – eu apenas facilitei o alcance de suas vocações inatas. Eu é que por todos esses anos precisei deles. Mas agora é momento de dar meus passos sem eles. Sou eu que me emancipo, a partir do carinho e confiança, para continuar a enfrentar o cotidiano, mas agora sem aquele apoio diário. Eu – e não eles – é que terei de aprender a andar sozinho. Mas eles me ensinaram bem e, tenho certeza, com o que me passaram, serei capaz de ir ainda bem longe.

Continuarei lecionando fora da graduação, mas vou levar essa saudade, apesar da sensação de missão cumprida: conheci pessoas extraordinárias, cresci com elas e ganhei mais inspiração para fazer parte da política e da mudança que acredito ser tão importante para o país. Acredito que meus alunos vão ajudar a mudar o mundo em que vivemos, porque eles são capazes disso.

 

Texto originalmente publicado no jornal O Tempo – 04/02/2019

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