Trocas de favores por todas as partes

julho 30, 2018 10:55 am

 

Corrupção nada mais é do que estabelecer uma cadeia de troca de favores. E ela é mais comum do que gostaríamos de reconhecer.

Em uma rápida passada de olhos no sistema político brasileiro, veremos: que presidentes e governadores, para governar, compram com emendas parlamentares o apoio de senadores e deputados; que, para serem eleitos, despejam esses recursos em contratos que favoreçam prefeitos e vereadores que façam parte de sua base; e, por fim, esses últimos trocam vagas em escolas, asfaltamento de ruas e liberação de procedimentos médicos por votos…

Todos, nessa cadeia, de uma forma ou de outra, estão promovendo o que é a corrupção no país.

O caminho tradicional de abordagem do problema, no Brasil, está na busca de investigar, julgar e prender os políticos culpados – o que precisa ser feito, claro. Mas se os presos forem substituídos por aqueles que se elegem na base da troca de favores com o eleitor, estaremos apenas substituindo o corrupto do momento por um novo.

Ao lado do esforço de abrir espaço na política a partir da prisão dos bandidos com mandato, temos de romper com a lógica de pedir favores aos políticos eleitos para atender conveniências ou necessidades individuais.

Algumas pessoas insistem em não perceber o mal que fazem ao transformar o “seu eleito” em um canal de solução dos seus problemas individuais. Mas a questão é simples: um vereador, para mudar um ponto de ônibus de lugar, a seu pedido, vai ficar devendo um favor ao prefeito que ele deveria fiscalizar… e não preciso dizer mais nada.

Por isso não atendo – aliás, também não mais costumo receber – pedidos de ajuda com cortes de árvore, buracos na rua, vagas em escola ou hospitais… Não posso permitir que meu mandato se transforme em devedor do Executivo, nem posso permitir que meus eleitores acreditem que eu represento os interesses individuais deles. O papel de um político é cuidar do interesse público, das questões que interessem ao conjunto – e, assim, cada um pode viver melhor, porque o governo não estará trabalhando para os amigos do poder.

Se um político se transforma em despachante dos interesses particulares frente aos órgãos e gestores públicos, estamos apenas perpetuando a lógica da corrupção sistêmica em que já vivemos.

Desde o começo do mandato eu gravo e publico minhas reuniões. Além do compromisso com a transparência, é também um incentivo para que a pessoa reflita se ela deveria me dizer o que ela “planejou dizer”. Pois se é algo que ela não se sente confortável em dizer em público, talvez ela simplesmente não deveria dizer.

É, afinal, uma forma lateral de obrigar o cidadão a refletir sobre o que ele espera de um político – e o que ele deveria esperar.

Temos de romper com a lógica de pedir favores aos políticos eleitos para atender conveniências ou necessidades individuais.

 

Texto originalmente publicado no jornal Hoje em Dia – 30/07/2018

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