Trabalhar, trabalhar, trabalhar…

abril 30, 2014 7:42 pm

Tive um professor, de Direito do Trabalho, que gostava de repetir, em tom de brincadeira: “Não sei quem inventou que o trabalho dignifica o homem, o que dignifica o homem são as férias”. Será?

Essa falta de interesse na atividade produtiva, na geração de riqueza, na perseguição do sucesso pessoal, substituída por uma busca compulsiva do “prazer”, tem se tornado um problema cada dia mais evidente, e as pessoas passaram, já há algum tempo, a preferir a construção do ócio, mesmo que “não merecido”, à labuta diária.

O economista John Kenneth Galbraith se refere a esse fenômeno como a “cópia do rico ocioso”, como se as pessoas tivessem elevado a tal grau a fantasia de que a vida do rico é melhor e precisa ser copiada, que não conseguem mais encontrar prazer nas atividades que a vida lhes exige, como o trabalho ou estudo. Tudo isso veio se transformando em um ônus insuportável.

Perguntei, dia desses, a uma ex-aluna e amiga, que começou a trabalhar em outro escritório, se estava animada com o novo trabalho. Ela parou um pouco e disse, meio séria, meio reflexiva, do alto de seus vinte e poucos anos: “Estou precisando aposentar!”

A aposentadoria deixou de ser uma conquista e passou a ser um prêmio, que as pessoas pretendem alcançar cada vez mais cedo, para se entregar ao fare niente (fazer nada). O problema é que, no mundo capitalista, esse mesmo que estimula a “cópia do rico ocioso”, para alguém gozar os prazeres da vida, outros terão de trabalhar, e quanto mais pessoas decidirem não fazer nada, mais aquelas que não têm opção terão de trabalhar.

Às voltas com as comemorações de mais um dia do trabalho, com shows e suspeitos sorteios de carros, fico me perguntando quantos trabalhadores não gostariam de participar de um sorteio de aposentadoria, que os liberasse do peso terrível do trabalho.

Bem, que esse dia sirva para alguma reflexão, enquanto eu, de minha parte, continuo encontrando prazer no que faço e orgulho em dizer que trabalho todos os dias, em uns mais e em outros menos, feliz por fazer o que gosto, sem pretensões de aposentadoria antecipada ou ilusões de que trabalhar seja um obstáculo à felicidade.

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