Operação abafa

setembro 23, 2019 9:00 am

Assisti com muito espanto, nos últimos dias, ao processo de salvamento de Flávio dos Santos no plenário da Câmara. Por um voto não foi autorizada a abertura do processo que investigaria a prática de “rachadinha”, apesar de denúncias formalizadas por ex-servidores, acompanhadas de áudios com confissões de atuais servidores do gabinete do vereador – como de um motorista que recebe mais de R$ 16 mil e repassa mensalmente a maior parte de seu salário para o próprio vereador. Estranhamente, o fato é o mesmo que, meses atrás, levou à cassação de um outro vereador, o primeiro a perder o seu cargo em Belo Horizonte.

Nos últimos dias, o vereador Cláudio Duarte usou as suas redes sociais para denunciar que a sua cassação seria um movimento orquestrado a partir da Prefeitura. Postou imagens de supostas mensagens pessoais trocadas com o prefeito, com agressões verbais e um fecho sintomático, quando o prefeito teria dito: “Seu amigo Marcelo resolve agora”. Marcelo é o servidor que viria a protagonizar as denúncias contra Cláudio. Denúncias que, no momento da mensagem, não eram públicas, mas aparentemente eram conhecidas pelo prefeito. A frase leva à pergunta: se Cláudio Duarte não tivesse rompido com o prefeito, o desfecho seria diferente no processo de cassação?

Aparentemente só é cassado quem não tem amigos na Prefeitura ou na Câmara Municipal.

A soma do salvamento de Flávio dos Santos com as denúncias feitas por Cláudio Duarte deixam aberta uma pergunta: Wellington Magalhães também será salvo por pressão do Executivo e da base de governo? O critério para julgamento em plenário não é a avaliação do ato do vereador, mas das ligações do acusado?

Fiz questão de dizer, no dia da sessão que salvou Flávio dos Santos: minha preocupação é que eu tenha sido usado para dar suporte técnico à cassação de um inimigo do prefeito, mas que o destino dos amigos seja diferente. Não houve, de forma alguma, injustiça na cassação de Cláudio Duarte – ele praticou “rachadinha” e tinha de ser cassado. O absurdo é não se permitir sequer a abertura de uma investigação contra um outro vereador, pelos mesmos fatos e com provas ainda mais consistentes.

É esperar e ver como a base de governo, que salvou Flávio dos Santos, vai se comportar no julgamento de Wellington Magalhães.

 

Texto originalmente publicado no jornal Hoje em Dia – 23/09/2019

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