O risco da mediocridade

julho 29, 2013 2:35 pm

 Concordar com o que todos já defendem é apenas a saída mais fácil, não necessariamente a mais inteligente.

 

A maior parte das pessoas não é capaz de perceber o que é a mediocridade e isso significa, muito provavelmente, que o próprio sujeito é medíocre. Não que isso seja um defeito, ao contrário, já que o medíocre é exatamente igual à maior parte das pessoas. Pior seria ser menos que isso e muitas pessoas efetivamente o são.

O medíocre, contudo, traz algumas preocupantes peculiaridades, que, em um panorama mais amplo, significam sim uma grande perda, não para ele, mas para o conjunto das pessoas. Isso porque o medíocre não se incomoda com repetição interminável das coisas, por mais equivocadas que elas sejam, pois a regularidade é o seu lema e a repetição o seu meio de sobrevivência.

O medíocre prefere votar no mesmo candidato, ou em quem ele manda, para não ter de escolher o seu próprio.

O medíocre tem medo de ascender profissionalmente, a partir de determinados limites, pois teria de deixar de cumprir ordens e passar a dá-las (no que, aliás, faz muito bem, pois pouca coisa é mais triste que um chefe medíocre).

O medíocre está sempre na moda (em comida, em roupas, em carros…), porque está sempre imitando uma tendência que lhe foi apresentada.

Em suma, o medíocre é incapaz de qualquer ato de criação autônoma, sendo sempre bem mandado.

Estranho que tentamos incutir, em nossas crianças, esses hábitos da mediocridade, ao desincentivarmos o diálogo, preferindo sempre que a criança obedeça sem perguntar, reprimindo quando ela demanda explicações e premiando a sua bestialização televisiva.

A verdade é que mesmo em se tratando de nossos filhos amados, preferimos, em regra, a comodidade do convívio com os medíocres.

Há, obviamente, as crianças que não se curvarão e resistirão a essas tentativas de massacre intelectual, promovidas dentro de casa, mas a maioria irá sucumbir e engrossará, no futuro, as já largas fileiras dos comuns.

A indolência será a sua palavra de ordem e preferirão seguir a liderar.

Esse é o destino que pregamos para nossos jovens ao incentivar a repetição e desestimular os debates, o destino do gado, que será sempre tangido.

Esse é o risco da mediocridade, o da perda do controle de nossos próprios destinos, pela entrega, nas mãos alheias, de toda a nossa existência, sem nenhuma condição crítica de revisão.

Fora isso, devo admitir que o medíocre tem uma existência menos cansativa, não que sua vida seja livre de problemas, mas a sua capacidade de percebê-los é limitada e, portanto, passará por muita coisa sem distinguir o que houve.

Será, portanto, mais feliz, diante das constantes “certezas absolutas” que lhe foram incutidas por outras pessoas que, com suas próprias e pessoais agendas, definiram o que deveria ser encarado como verdade.

A ausência de dúvidas, outra característica da mediocridade, é um sentimento reconfortante, capaz de guiar no escuro em uma direção que parece necessária e única, sem que a pessoa perceba a quantidade de buracos pelos quais passará. Melhor ainda, se chegar a cair dentro de um deles, poderá sempre contar com a definitiva arma da mediocridade, a crença nos insondáveis desígnios do destino.

Dito tudo isso, tenho sérias dúvidas sobre os defeitos dos medíocres, pois só posso concluir que serão sempre mais felizes do que aqueles que decidirem se levantar e procurar enxergar, com seus próprios olhos, o mundo que está lá fora.

A única vantagem que esses últimos poderão usufruir é a certeza de que, quando se alegrarem, o farão por motivos efetivos, e não porque assim foi determinado a eles.

Há alguns anos, quando acabava de sair da faculdade, discutia um assunto técnico com uma colega, que, diante de um argumento meu, que lhe era novo, perguntou: “Mas em qual autor você leu isso?” O argumento havia sido retirado de um voto do STF, mas, para brincar com ela, respondi: “Fui eu que desenvolvi esse raciocínio”. Ela me olhou um pouco e concluiu, com tom de definitividade: “Então não significa nada”.

No dia, fiquei bastante aborrecido com minha falta de credibilidade, mas ao mesmo tempo me compadeci da incapacidade de minha colega de reconhecer uma boa idéia por si mesma, sem que uma “autoridade” assim lhe determinasse.

Hoje, alegro-me ao perceber que não sou dotado do mesmo preconceito.

Acredito que todos podem construir e propor soluções úteis e adequadas para os problemas do mundo e que concordar com o que todos já defendem é apenas a saída mais fácil, não necessariamente a mais inteligente.

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