O respeito à intimidade e à vida privada

julho 29, 2013 5:53 pm

Cada um experimenta um pouco da falta de ordem que todos nós plantamos, para o bem ou para o mal.

 

Desde o século XIX nos Estados Unidos e mais recentemente no Brasil, vem crescendo a discussão acerca da proteção a essa esfera da vida de cada um, que pretendemos seja mantida guardada do olhar curioso da população em geral.

O Direito tem avançado bastante em instrumentos legais e judiciais capazes de garantir o respeito a essa reserva particular de cada indivíduo.

A sociedade, por sua vez, parece caminhar no sentido contrário, inviabilizando, em alguns casos, a proteção a intimidade de certas pessoas que, por ato de vontade, resolvem expor suas vidas, até nos mais sórdidos detalhes, à apreciação e julgamento do público em geral. Estou me referindo, obviamente, aos reality shows, moda que continua em expansão, mas estou me referindo também a outras formas menos evidentes de exposição geral da própria vida.

O Facebook, em muitos casos, é exemplo dessa comunicação, universalmente aberta, da privacidade de algumas pessoas, que registram o que fazem a cada momento, do despertar e escovar os dentes, às visitas a banheiros, refeições e relações sexuais, sem perdoar qualquer detalhe.

Mas mesmo nos atos menores, nas questões do dia a dia, percebemos uma frequente perda do respeito a nossa própria intimidade.

Lembro-me de que não era polido, até algum tempo atrás, conversar no celular em elevadores, prática que se universalizou, para não falar daqueles que conversam com seus fones de ouvido rua afora, em tom que permite até aos mais distraídos acompanhar a conversa.

Falo também dos beijos lascivos que até recentemente eram divididos em momentos de penumbra, no cinema, na saída da festa, no escuro da boate e que hoje são dados na porta da escola, em frente dos professores, dos pais e dos passantes.

Falo do sexo, que era realidade proibida no mundo adolescente e que não só foi aberta ao diálogo e discussão franca em família e entre amigos, mas tem levado cada dia mais casais de namorados, menores de idade, a manter sob o teto paterno e com o consentimento dos pais as relações antes escondidas a quatro chaves.

Não sei se sobrou muita intimidade a proteger, pois a verdade é que já respeitamos muito pouco a nossa própria vida privada.

Tenho minhas dúvidas, aliás, se a vida privada, como idealizada juridicamente há mais de cem anos, ainda existe.

Tenho para mim que nossa intimidade transformou-se em algo difícil de ser medida e, portanto, quase impossível de ser protegida, em uma série de situações.

Não me agrada o palpite alheio sobre minha vida privada, não me agrada a vista do outro sobre as questões da minha casa, da minha família, da minha VIDA, mas não sei se é possível refrear a curiosidade daqueles que se vêem autorizados e incentivados a invadir a privacidade alheia dia após dia.

De alguma forma, a reclamação constante dos mais velhos com relação à falta de respeito dos mais novos tem nesse fim das fronteiras da intimidade a sua causa mais remota. É que ao jovem não parece estranho intrometer-se na conversa alheia, nem lhe parece errado comentar o que vê, espontaneamente, sem se preocupar com os sentimentos ou privacidade da vítima do comentário.

Esse é o mundo da liberdade plena de expressão, em que o respeito à privacidade e à vida privada é difícil de ser garantido e mesmo de ser identificado.

Esquecem os que reclamam, contudo, que nenhuma geração se põe sem o impulso da que lhe antecedeu e, por uma via ou por outra, os pais sempre provam o que plantaram em seus próprios filhos.

Os limites não serão dados pela lei, mas por cada um, nos seus convívios familiar e social mais estreitos.

Cada um experimenta um pouco da falta de ordem que todos nós plantamos, para o bem ou para o mal.

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