O Brasil ainda não aprendeu a cuidar de suas cidades

março 2, 2014 7:12 pm

Ter orgulho de ser brasileiro nunca foi fácil e tem se tornado cada dia uma tarefa mais difícil.

Mas por que estamos tão longe daquilo que consideramos ser bom? Se temos tantas perspectivas, por qual razão não conseguimos ter a vida que merecemos?

Qualquer comparação que fazemos entre as cidades brasileiras e as importantes cidades do mundo nos deixa envergonhado, mas parece que pouca gente se propõe a pensar soluções, como se tivéssemos que nos acostumar com os problemas e aprender, no dia-a-dia, a desviar deles.

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Veja a questão do metrô, por exemplo. Temos em Belo Horizonte 10 vezes menos linhas do que Londres e transportamos 20 vezes menos passageiros, e, enquanto isso, os mineiros estão perdendo 20% do seu tempo de vida em deslocamentos (se é que andar na velocidade do trânsito em BH pode receber esse nome). Se compararmos São Paulo e Nova York a situação não é muito diferente,  mesmo sendo cidades de mesmo porte. São Paulo tem sete vezes menos linhas, com extensão seis vezes menor. Vou evitar fazer a comparação entre Rio de Janeiro e Paris, para não me irritar, mas basta dizer que o metrô parisiense transporta quase 20 vezes mais passageiros do que o carioca – e depois perguntam a razão de o turista brasileiro preferir ir a Paris do que conhecer o Rio de Janeiro.

Esses países não nasceram assim. Essa infraestrutura foi construída com o tempo, com planejamento e com investimento dedicado a obras de infraestrutura perene e não a emenda de buracos na rua, pinturas de passeio ou alargamento de canteiros, como soluções definitivas, mas que só duram uma chuva.

Em termos de violência, a discrepância é ainda mais grave. A situação beira o ridículo, mesmo deixando Maceió de fora, onde a taxa de homicídios é quase 100 vezes maior do que a verificada em Paris (isso mesmo, é 100 vezes mais fácil morrer passeando na praia em Alagoas do que visitando a Torre Eiffel). São Paulo tem três vezes mais homicídios do que Nova York e o Rio de Janeiro 10 vezes mais do que Paris. Belo Horizonte, nossa pacata capital mineira, tem índices 20 vezes piores do que Londres.

Não adianta simplificar, o problema não é falta de dinheiro, não é falta de pessoal, não é falta de estrutura, nem de educação: é a soma de tudo isso, agravado pelo fato de que, também quanto a isso, nossos governos propõem apenas soluções imediatas e com impacto de mídia. Por que não privatizamos mais presídios? Por qual razão continuamos tolerando pequenos delitos como se eles não fossem a base que permite o crescimento dos crimes mais graves? Que tipo de educação estamos oferecendo em um país sem padrões morais de conduta, em que não temos mais líderes, pois desconfiamos que todos eles sejam corruptos?

Temos 16 das 50 cidades mais violentas do mundo e nada parece estar sequer próximo de uma solução porque, com exceção das UPPs no Rio de Janeiro, ninguém teve uma única ideia original para abordar o problema nas últimas décadas. Continuamos tratando o problema com o mesmo remédio que não funciona, desde a década de 80, esperando que, por milagre, alguma coisa vá mudar.

Enquanto isso, os Estados, que deveriam resolver o problema da segurança, têm apenas 25% da arrecadação tributária do país. Com essa verba, têm de cuidar ainda de saúde, educação, boa parte da infraestrutura e, ao final, está tudo mal feito e semiacabado.

Os municípios estão em posição ainda mais precária, respondendo por apenas 5% da arrecadação tributária, com o que deveriam resolver os graves problemas de nossas cidades, inclusive o de transporte, que tem prejudicado nossa econômica e acabado com nosso humor.

Remodelar a distribuição do dinheiro na federação brasileira é uma necessidade, redistribuir as funções é também um caminho possível, mas, essencialmente, precisamos de mais inteligência na política, para que a máquina pública abandone suas duas maiores manchas de ferrugem: a corrupção e a imobilidade.

 

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