Não vivo de nostalgias

julho 23, 2018 10:53 am

 

Alguns podem achar que isso me faz excessivamente otimista, mas não vivo de nostalgias. Acredito que os anos que estão à frente serão sempre melhores que os passados e a humanidade segue em um processo histórico de evolução, com momentos de incerteza e aparentes retrocessos – mas, enquanto conjunto, continuamos avançando.

É por isso que não compreendo quem insiste em querer devolver o Brasil ao passado. Seja o passado mais remoto das ditaduras militares ou o mais recente, dos equivocados governos de esquerda. De alguma forma, é como se não aprendêssemos com os erros do passado, não fôssemos capazes de perceber os sérios problemas gerados por uns e outros e, ao final, em uma espécie distorcida de Síndrome de Estocolmo, estivéssemos ansiosos por voltar a viver as dificuldades que já sabemos como terminam e a que custo.

Nos últimos meses, em vários momentos me senti como preso naquele filme “Meia noite em Paris”, em que o protagonista, todos os dias, entre meia-noite e o horário em que ele vai dormir, se vê na Paris dos anos 20, época que ele considera ser o ápice da intelectualidade. Apenas para descobrir que os escritores e intelectuais daquela época consideravam que o melhor dos tempos teria sido aquele de 40 anos antes… indicando um looping infinito na direção de um saudosismo equivocado porque, na verdade, é apenas a distância que nos faz acreditar que as coisas eram tão melhores no passado. É que nos sobram as memórias do que foi positivo, enquanto preferimos não relembrar os problemas.
O outro perigo trazido por essa reação nostálgica é a incapacidade de identificar e de atuar na solução dos desafios que estão à frente.

Enquanto o mundo discute as relações internacionais de comércio, a disputa entre China e EUA, o reposicionamento global da Índia e as dificuldades Europeias, ainda nos vemos submetidos a um embate sobre nacionalismo e estatismos equivocados, em busca de modelos que nunca funcionaram fora do papel, mas que, de fato, nesse momento, podem representar riscos gigantescos para o Brasil, ao lado de perdas de oportunidades irrecuperáveis.

Nesse ritmo, se o país não conseguir olhar para frente, enquanto se aproxima a eleição e, com isso, acabar elegendo quem represente apenas essa saudade do que nunca existiu, vamos perder as oportunidades de ganhos de eficiência no serviço público, de desburocratização na economia, de exportação com o câmbio baixo e de crescimento com a inflação sob controle…

Prefiro olhar para frente, não porque seja otimista, mas porque acredito na condição humana de aprender e evoluir com suas experiências. Quem acredita que o passado foi sempre melhor é que, na verdade, é acometido de uma miopia ingênua.

 

Texto originalmente publicado no jornal Hoje em Dia – 23/07/2018

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