Justiceiros: o custo da justiça pelas próprias mãos

maio 7, 2014 8:36 pm

Dezenas de argumentos podem ser levantados contra a justiça privada, essa realizada pela própria população, que arranca na força o seu direito. No entanto, diante da falência do aparato de segurança pública e da falta de crença no sistema judiciário, essa solução parece até ser inevitável.

É difícil argumentar contra o acorrentamento de bandidos no poste quando vemos assaltantes sendo liberados diariamente, homicidas sendo liberados da cadeia e corruptos transformando penitenciária em hotel de luxo. Considerando o estado lastimável da violência no Brasil, a lei do cada um por si parece uma quase necessidade, que, aliás, é adotada por quem pode há muitos anos, com carros blindados, seguranças armados, vigilância eletrônica…

Infelizmente é preciso um evento como o do início desta semana para lembrarmos o que multidão é capaz de fazer, levada pelo medo, pela raiva, pela inconsequência e pelo inconformismo com o estado das coisas. A dona de casa, Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, mãe de duas filhas (uma de 12 anos e a outra de apenas 1 ano), foi apedrejada até a morte no Guarujá, litoral de São Paulo, ao ser confundida com uma suposta sequestradora de crianças, cujo retrato falado está circulando na internet.

As circunstâncias precisas da morte e da razão da aparente confusão ainda estão sendo investigadas, mas não há justificativa para o resultado. Ainda que se consiga dar uma explicação lógica, nunca se justificará a morte de uma pessoa inocente, deixando ainda duas crianças órfãs.

Individualmente, temos de lutar contra esse impulso de seguir a multidão e fazer justiça pelas próprias mãos, pois não há, ali, espaço ou tempo para defesa, reflexão, verificação de culpa…

Por outro lado, acreditar que pessoas que são violentadas diariamente, sem assistir qualquer atitude efetiva por parte do Estado, vão apenas esperar para que a justiça chegue, como um presente divino, é não compreender os instintos humanos de autopreservação.

Onde falham as instituições, o indivíduo tenderá ao egoísmo da defesa particular de seus direitos, ainda que passando por cima dos direitos alheios, pois nesse espaço, a regra é a lei da selva.

Por isso é que as instituições não podem ser abandonadas, mesmo quando elas falham. Precisamos resgatar a confiança na polícia, na justiça e na política e isso só será possível com uma mudança severa dos interesses que são defendidos pelo estado brasileiro e das pessoas que representam esse Estado. Enquanto as estruturas existirem para defender os interesses de poucos, que vivem encastelados, a escalada da violência de revide vai aumentar, com mais linchamentos, acorrentamentos e desordem, até que nada mais reste do que um estado contínuo e permanente de caos, como se precisássemos destruir tudo, para começar de novo. Quem sabe não começamos a fazer jus à fama de animais racionais e conseguimos mudar, com algum esforço, antes de colocar tudo abaixo.

Comentários