Eu não tenho filhos, tenho alunos

julho 29, 2013 2:01 pm

Errar só é tão grave se não formos capazes de perceber porque era errado.

 

Eu não tenho filhos, ao menos não ainda. Talvez os tenha, em algum momento, mas essa realidade ainda não faz parte da minha vida. Como tanto eu quanto minha mulher damos aula para as mesmas turmas, é comum os alunos perguntarem se não teremos filhos. Eu costumo responder, bem humorado, que eles (os alunos) me desanimam…

Isso não é verdade, ao menos não assim, pois meus alunos são responsáveis por algumas das maiores alegrias da minha vida. Eu dou aulas por eles e para eles, busco a aprovação final de cada um porque não dou aulas para mim mesmo.

A relação, em sala, ao menos comigo, é de continua troca. Meus 9 anos de magistério fizeram de mim uma pessoa mais calma, mais tolerante, mais bem humorada… De minha parte, tento transmitir a eles os meus conceitos, não os teóricos, pois esses são a obrigação profissional, refiro-me aos conceitos morais.

Há poucos tempo, contudo, fui submetido a uma grande prova, fui obrigado ao confronto direto com 4 turmas, sobre o mesmo sério problema.

No dia-a-dia da sala de aula as questões são levantadas e resolvidas de forma frenética e instantânea. Problemas como a indelicadeza de uma pergunta ou o comportamento inadequado durante uma palestra são resolvidos ali, “no ato”. Mesmo problemas mais sérios como uma “cola” ou um plágio são resolvidos com firmeza, mas de forma individual, sem o risco do levante da comoção geral. Algumas suscetibilidades são feridas, mas sempre encontro apoio à minha palavra severa, ao meu olhar de repreensão e ao meu tom irônico, diante do erro.

Dessa vez seria diferente, teria de conversar com todos… Teria de me contrapor ao comportamento conjunto… Teria de ser, portanto, impopular. Logo eu, que me apego tanto à aprovação deles.

Perdi algumas horas de sono, pensei bastante e decidi que, se gosto deles como filhos, deveria me dispor às dificuldades de uma relação da mesma complexidade.

No dia fatídico fui para a faculdade, pronto para a conversa mais difícil que já tive com meus alunos… E não foi mesmo fácil… Ao menos não para mim.

Alguns se ressentiram, outros pareceram ignorar o que eu havia tão dolorosamente dito, mas ao final fui mais uma vez surpreendido por maravilhosas figuras humanas, que se levantaram altivas, diante da severa crítica que fiz, reconheceram seus erros, apresentaram suas desculpas, recusaram benefícios, e dignamente pediram uma nova chance para provar que eram mais do que pareceram, naquele terrível momento de erro.

Como os brotos que se levantam em meio à devastação de uma queimada, mostraram que renascer é um processo natural e necessário.

Aprendi com eles, mais uma vez, entendendo que errar só é tão grave se não formos capazes de perceber porque era errado.

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