Em BH, as ruas têm donos

maio 13, 2019 9:30 am

 

A situação da capital é insustentável, e a prefeitura municipal parece não se importar com isso. São já mais de 6 mil pessoas morando na rua, um aumento de 50% desde a posse do atual prefeito, sem que nenhuma ação efetiva seja tomada para reverter a situação.

 

Para discutir o problema, a Câmara Municipal realizou audiência pública na última quinta-feira, com a presença de associações de bairro, entidades do comércio e da população em geral: para cobrar providências efetivas e imediatas, pois a cidade sucumbe.

 

Infelizmente, a prefeitura se escondeu e os representantes convocados simplesmente não compareceram. Pior: a base de governo fez uma manobra para proteger os secretários municipais. Chamaram uma outra audiência, com menos de 24h de antecedência, para o mesmo dia, de manhã, convidando as autoridades, mas não avisando a mais ninguém. Ou seja: armaram um “faz de conta” para enganar os mais desavisados, criando eventos em horários diferentes, levando a população para um e as autoridades, para outro… Que tipo de manipulação é essa?

 

A verdade, que a prefeitura não quer encarar, é que a falta de providências transformou a cidade em ponto de imigração de usuários de droga, doentes mentais e moradores de rua, que são depositados nas ruas de Belo Horizonte sem dignidade, sob o argumento de que removê-los atentaria contra as suas dignidades… Contrassenso completo – manter as pessoas na rua, em condição indigna, sob o argumento de proteger sua dignidade.

 

BH, com isso, inaugura nova forma de privatização dos bens públicos – a sua transferência a uso exclusivo de quem resolve transformar calçadas e praças em casa, restaurante ou banheiro particular. A reação tem de ser efetiva e rápida, para tratar de um problema complexo e que não admite mais populismo.

 

Com o inverno se aproximando, todos nós ficamos ainda mais preocupados com a condição indigna de vida dessas pessoas na rua. Mas transformar as ruas em pavilhões de acolhimento não é uma política pública, é o contrário disso, representando apenas a preguiça ou incompetência de quem deve uma resposta à população da cidade e parece esperar que o problema se resolva sozinho.

 

Quem mora nas regiões mais afetadas pelo afluxo das quase 7 mil pessoas que vivem nas ruas sabe dos problemas associados a essa presença, mas a prefeitura parece não ter percebido que o problema existe. No fundo, é como se considerasse que essas pessoas são donas do espaço público – mas não são, pelo menos não sozinhas. Afinal, o uso de um bem comum não pode prejudicar ou eliminar seu uso bem pelos demais moradores da cidade.

 

Texto originalmente publicado no jornal Hoje em Dia – 13/05/2019

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