Direito ao próprio corpo: Padrões Estéticos

novembro 19, 2013 5:22 pm

Londres e Tóquio são as duas cidades que costumam deixar estupefatos os brasileiros com as esquisitices dos passantes nas ruas (ao menos a nosso ver os cabelos e roupas parecem muito estranhos e o conjunto de tatuagens e piercings completam um visual surreal).

O problema é que essas estranhezas só são consideradas cool quando vistas à distância, lá fora. Aqui, a ditadura da padronização é assustadora.
Quanto ao corpo, em si, temos a luta desesperada pelo peso ideal, a forma física perfeita, o bronzeado da estação. As pessoas renunciam à escolha do que seria bom para elas em troca do que foi determinado como sendo o adequado.

Não é diferente quando o assunto é cabelo, em seu corte, cor ou penteado, ou vestuário, em que a questão é ainda mais grave, atingindo desde acessórios, passando pela marca, estampa e corte das roupas, até os sapatos e bolsas de cada estação. A coisa toda tem uma proporção assustadora, consumindo parte considerável da renda das pessoas apenas para que elas estejam “atuais”.
É interessante, contudo, que não conseguimos identificar quem seja o responsável pela definição desses padrões. É que a ditadura do padrão é um movimento de manada, sem cabeças facilmente identificadas. Miranda Priestly (a editora megera de O Diabo veste Prada) afirmou que as pessoas comuns vestem hoje o que os editoriais de moda escolheram ano passado, mas mesmo os doutrinadores da moda são influenciados por forças ocultas.
A escolha de um tênis pelo Justin Bibber ou de uma maquiagem pela Beyonce têm origens que não conseguimos identificar (patrocínio, gosto, extravagância…), mas o seu efeito é evidente: a conversão imediata de uma escolha pessoal (da celebridade) em uma necessidade coletiva (do resto dos mortais).
Escrevi, alguns dias atrás, sobre a superioridade feminina na aceitação das diferentes opções sexuais, quando o tema é padrão estético, contudo, elas são vítimas mais fáceis. É entre as mulheres que se percebe uma tendência curiosa: o protesto contra os padrões estéticos constitui, em si, um novo padrão estético. É que as mulheres que querem subverter o sistema acabam fazendo-o também uniformemente, de tal maneira que não expressam a sua opção, mas a opção tribal de contrariedade ao que a maioria escolheu, formando um outro grupo uniforme. É fácil reparar que o padrão das tatuagens, dos piercings e das roupas daquelas que se consideram desgarradas do sistema formam um novo grupo de pessoas iguais. Até a cor desbotada do all star delas é idêntica.
Os efetivamente autênticos, nessa questão, do padrão estético, são alijados do sistema, ou diminuídos até que passam a se considerar mesmo piores. Os gordos passam a vida tentando emagrecer, os calvos tentando fazer crescer cabelos, os pobres correndo atrás de cópias do figurino dos ricos…
É como se toda a roda fosse feita para que, ao final, você sempre se sinta deslocado e com a necessidade de se adaptar, novamente, ao modelo prevalente, consumindo mais do que seu dinheiro, sua vida, no propósito de agradar o senso geral estético que não sabemos de onde veio, nem para onde caminha.
Com isso, somos sempre menos autênticos, eu inclusive.
Tenho uma aluna que tem horror às minhas gravatas e faz questão de criticar as cores, que considera muito fortes, ou as pequenas estampas, que a incomodam – diz preferir as gravatas lisas, como as que o pai dela usa. Tenho dúvida sobre se a opção dela não tem inspiração nos modelos Mad Men (minissérie que está reformando os guarda-roupas masculinos nos últimos anos, com a volta do figurino da década de 60), mas já disse que cada manifestação dela reforça, em mim, a vontade de continuar com as minhas escolhas. É que assim, em pequenas coisas, reafirmo quem eu sou, e não o que os outros gostariam que eu fosse.

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