Depois da eleição

setembro 24, 2018 11:32 am

 

Pode parecer que não, mas a eleição acaba, mais cedo ou mais tarde…

Com ela, espero que venha a possibilidade de repensar, profunda e verdadeiramente, o nosso modelo político.

A eleição de pessoas de fora do ambiente político, um fenômeno que vai imperar no resultado a ser colhido das urnas, vai garantir a possibilidade de retomar temas que os ocupantes do poder, por algumas décadas, mantiveram enterrados porque não serviam aos interesses deles. A começar pelo financiamento público das campanhas e dos partidos: um deboche que retira R$ 1 bilhão em anos ímpares e quase R$ 3 bilhões nos anos de eleição para custear a farra das velhas legendas partidárias e as quadrilhas que as comandam.

Além do financiamento público, no entanto, há ainda outros vários e sérios problemas, a começar pela forma como as eleições proporcionais (para vereadores e deputados) ocorrem, em um sistema que privilegia a manutenção dos políticos atuais no poder, com votos espalhados de tal forma que ninguém consegue, de forma mais apropriada, cobrar os compromissos e a postura desejada do eleito. Essa a grande virtude de modelos distritais, puros ou mistos – permitir que o eleito seja mantido por perto do eleitor do seu distrito, que pode acompanhar o que é feito e exigir resultados efetivos.

A lógica das coligações proporcionais, que permitem a união de partidos para montar legendas e garantir a eleição de seus caciques, além da indecência do custo público do horário eleitoral de rádio e TV – que é gratuito apenas para os políticos, mas que, de fato, é custeado pelo poder público – são outros dos temas que serão enfrentados e superados por um Congresso menos comprometido com a política de ontem e mais alinhado com quem está do lado de fora.

É difícil transformar um modelo com o voto de quem se mantém no poder exatamente através da reprodução infinita desse mesmo modelo. Mas tenho convicção de que há espaço, em uma nova legislatura, para que ideias de rompimento com a politicagem tradicional sejam apoiadas de forma mais efetiva, não apenas porque vários dos atuais mandatários serão arrancados do poder pelo voto (outros tantos pela Justiça), mas porque os sobreviventes, mesmo que originados das velhas estruturas, terão de optar, em pouco tempo, entre mudar ou serem expelidos por um sistema de acompanhamento próximo e contínuo, pela população.

Brasília é longe, mas as redes sociais estão em todo lugar e não há proteção possível contra essa vigilância.

Os novos eleitos precisam tomar posse dos cargos e dessa certeza: quanto mais claros eles forem com a população, mas fortes eles serão para arrastar os demais consigo.

 

Texto originalmente publicado no jornal Hoje em Dia – 24/09/2018

Comentários