Atrás de cada privilégio tem um grande amigo do poder

maio 13, 2019 9:00 am

O aumento de 69% concedido a 97 servidores da prefeitura

 

Na última semana os vereadores de BH aprovaram um aumento de 69% do valor da gratificação paga a 97 servidores da Prefeitura cedidos aos gabinetes de alguns parlamentares – quase todos da base de governo.

 

O impacto orçamentário é enorme. De acordo com as informações apresentadas junto com o Projeto de Lei, a estimativa é de aumento da despesa anual em R$ 605.463,37.

 

No ano passado, os servidores do Executivo tiveram aumento inferior a 3%. Os do Legislativo, que já tiveram aumento esse ano, receberam 7%. Sem o meu voto, registre-se, porque foi acima da inflação, mas com o argumento razoável de que, por alguns anos, ficaram sem reajuste…

 

Nada explica, contudo, porque esse grupo de uma centena de servidores, ligados à base do governo, mereceriam um reajuste na sua gratificação quase 10 vezes superior ao aumento concedido aos servidores do Legislativo e mais de 20 vezes superior ao aumento dos servidores do Executivo. Ou melhor, uma coisa explica: eles trabalham para a base do prefeito Kalil na Câmara Municipal.

 

A verdade é essa: por trás de cada privilégio e distorção no Brasil, temos sempre um “amigo do amigo do meu pai”.

 

Eu sou servidor público concursado, ao contrário do que muitos imaginam. Não sou inimigo dos servidores e acredito que eles são o melhor lado das instituições públicas – o pior é o corpo político, não tenho dúvidas. Apesar disso, não posso aceitar que certos grupos, por se aproximarem mais do poder do que outros, sejam tratados como criaturas especiais, a merecerem tratamento favorecido.



Na defesa do projeto, os argumentos parecem todos muito republicanos. Falaram da importância do trabalho desses servidores, chamaram atenção para o fato de que não seriam “marajás”, mas servidores com salários relativamente baixos…

 


Bem, se eles não estão satisfeitos com seus salários, podem sempre fazer um outro concurso, para um cargo que pague melhor. Ou podem pedir exoneração e buscar um trabalho na iniciativa privada. O que não parece fazer nenhum sentido, para mim, é que eles ganhem um aumento, no adicional que recebem por trabalharem na Câmara, em percentual de 69% contra uma inflação de 3,5% (sem contar que esse adicional já sofreu esse ano o tal reajuste de 7% dado a todos os servidores do Legislativo).

 

No primeiro turno, quando fiz a denúncia desse absurdo e quase consegui derrubar a proposta – que teve, então, apenas 21 votos –, tive de ouvir um vereador da base de governo dizendo que avisaria ao prefeito para tirar os servidores dos que votaram contra… Depois riu, disse que era brincadeira. Mas a ameaça parece ter surtido efeito, porque em segundo turno a base votou solidamente a favor do absurdo, aprovado com 29 votos, que segue, agora, para a sanção do prefeito.

 

Apenas eu e mais três vereadores votamos contra esse absurdo: Gabriel (PHS), Pedro Patrus (PT) e Arnaldo Godoy (PT). Como me disse um amigo: o projeto é tão ruim que até o PT votou contra.

 

Isso tudo ao mesmo tempo em que o país inteiro se mobiliza para pedir responsabilidade nos gastos públicos e sacrifícios individuais na aprovação da reforma da previdência para garantir um sistema mais justo. Infelizmente parece que justiça é critério que vale bem para os outros, mas pouco para os amigos do poder. Eu não peço mais por justiça, peço apenas COERÊNCIA: se o prefeito julga que os servidores municipais merecem reajuste pela variação da inflação (e concordo com isso), espero que ele vete o projeto que concede a essa centena de amigos do poder um aumento 20 vezes maior.

 

Texto originalmente publicado no jornal O Tempo – 13/05/2019

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