A Câmara de Belo Horizonte e a banalização do mal na vida pública

agosto 19, 2019 9:00 am

Processos de cassação e ameaças de violência na Casa

 

Banalizamos o mal na vida pública, admitindo como corriqueiro o que é inaceitável. Por isso, nas últimas semanas, desde que eu relatei a cassação do vereador Cláudio Duarte e apresentei a denúncia para a cassação do vereador Wellington Magalhães, venho oscilando entre períodos de verdadeira raiva do sistema e dos que se apossaram dele, entremeados por momentos de desânimo com a classe política, que parece quase irremediável.

Eu não esmoreço, não recuo nem flexibilizo o meu combate à corrupção e aos desvios de caráter no exercício de posições políticas, mas devo confessar que, em determinado momento, minha ação deixa de ser pela função que exerço a partir do voto popular e passa a ser mesmo uma tentativa última, quase desesperada, de um náufrago em meio a um mar de absurdos, enquanto a maior parte do mundo político assiste desinteressadamente a tudo isso. É como se aceitassem como normais os horrores que estão acontecendo, desde “rachadinhas” até recebimento de propinas e fraudes em licitações, como se fossem um mal menor, uma coisa trivial: parte do cenário.

Em meio às ameaças à família da presidente da Câmara e à revelação de áudios em que Wellington Magalhães se refere a mim e ao promotor Leonardo Barbabela, falando em “metralhar”, “por isso que um cara chega e morre aí por causa disso”, “morre eu e ele (sic)”, o espaço político pareceu recuar um pouco de seu estado de torpor, para votar, de forma unânime, pela abertura do processo de cassação do ex-presidente da Câmara Municipal.

De alguma forma, parece que o risco de violência física é um mal mais grave, que merece atenção. É efetivamente um mal, realmente grave, mas não sei dizer se tão diverso do mal praticado por quem desvia, mente e manipula o poder público. Pior, mesmo nesse momento, a parte mais boçal do espaço político continua se referindo à situação como pouco grave, como se apenas um corpo estendido no chão pudesse dar o tom de gravidade necessário para eles.

Eu, como alvo das falas daquele vereador, melhor do que ninguém sei o custo pessoal disso. Apesar de ter recusado escolta o quanto pude, acabei tendo de ceder por determinação das autoridades policiais, que consideram ser, no momento, a única forma de garantir a minha segurança e da minha família. Apesar disso, fico me perguntando por qual razão a gravidade não era percebida antes, quando se falava em prejuízo de milhões aos cofres públicos. Minha conclusão é simples: banalizamos o mal.

É como se desvio de dinheiro público tivesse se tornado tão comum que não merecesse tanta atenção ou repulsa, como se fraudes em licitações fossem coisas ordinárias e, por isso, não levassem a reprimenda mais séria. É a banalização do mal, no sentido efetivo da palavra, como se uma escala moral invisível pudesse ser traçada, em que aceitamos agressões tidas como menores, apenas porque não as sentimos diretamente.

Eu admito que o espaço político está corrompido e que, de alguma forma, essas práticas e as denúncias têm ficado mais comuns, mas vou continuar rejeitando a ideia de que só por isso elas passem a ser aceitáveis: não são, e eu vou continuar resistindo.

A Câmara terá, nas próximas semanas, a oportunidade de mostrar que também mudou e que, apesar de ter livrado Wellington Magalhães da cassação no ano passado, não vai repetir o vexame. Ele será cassado não porque praticou um mal maior, mas porque não vamos continuar a banalizar o mal na política.

 

Texto originalmente publicado no jornal O Tempo – 19/08/2019

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